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  • Cotidiano em Crônicas

Sobrevivente

Atualizado: 11 de Nov de 2020

Quando a família ficou reduzida apenas a um casal de irmãos, a irmã decidiu que era bom deixar algumas instruções por escrito, já que suspeitava que seria a próxima a morrer.

A história da família era curiosamente trágica. Cinco mortes em cinco anos. Os pais e três dos irmãos foram morrendo um a um, cada qual com uma doença diferente, deixando sozinhos os últimos dois filhos. Nenhum dos irmãos havia chegado aos 30 anos. E, estando a irmã com 28 anos e o irmão sendo mais jovem, imaginou que seu destino se cumpriria em breve.

Ela fez até um testamento. Não desses que se registram em cartório e ficam nas mãos de algum advogado para serem lidos pelos herdeiros. Era um simples documento, escrito em uma folha de papel, onde ela deixava a casa e o carro – seus únicos bens de algum valor – para o irmão. Dinheiro não tinha nem nada de valor. Era só. Todas as suas posses resumidas em poucas linhas.

Os dois remanescentes da família eram saudáveis. Não tinham nenhuma doença. Mas os outros que se foram também não tinham, portanto os que sobraram não confiavam muito na suposta saúde de que gozavam.

E o destino novamente deu as caras no ano seguinte. Mas levou o irmão mais novo. Seis anos, seis mortes.

O próximo ano seria a vez dela, portanto. Não tendo mais parentes próximos, nem sequer um sobrinho ou primo, decidiu fazer um novo testamento deixando as suas míseras posses a uma instituição de caridade. Escolheu uma que cuidava de animais porque adorava animais. Mas nunca arriscou-se a ter nenhum de estimação, porque não esperava que fosse viver para poder cuidar de algum bicho.

Pacientemente, ela esperou pela sua vez na fila da morte. Refez alguns exames médicos como já era praxe, sem nada de errado ser detectado como também já era praxe. Mas não se deixou impressionar pelos resultados, afinal como já se disse todos da família também foram considerados saudáveis.

A poucos meses de completar 30 anos, ela sentiu-se melancólica conforme ia aproximando-se a data de seu aniversário. Cada dia ela pensava que talvez fosse o último. A expectativa do adeus era tão grande que deixou até mesmo de armazenar alimentos. A geladeira estava sempre vazia. Não queria deixar uma geladeira cheia de alimentos estragados para alguém limpar.

Na véspera do dia em que completaria 30 anos, ela não conseguiu dormir. Ficou de olho no relógio e quando chegou meia-noite, sentiu um estranhamento, como se algo houvesse mudado. Ou era apenas impressão.

Talvez a morte chegaria no dia seguinte. Mas não chegou. Nem no dia seguinte e nem no ano seguinte.

Após cinco anos, ainda estava aqui. Por alguma razão que ela não entendia, sobreviveu. Mas, de tanto imaginar que a morte estava à espreita, não fez amigos, não formou família, gastava pouco para não contrair dívidas que talvez não conseguisse pagar. Não vivia, sobrevivia.

E 20 anos depois, cumpre a promessa feita à mãe de que o último remanescente levaria flores ao jazigo da família uma vez ao ano.

O que levou a família nada tinha de genético. O único traço genético que os outros compartilhavam parecia ser o azar mesmo.



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