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Simão

Atualizado: 20 de Nov de 2020


Um dia ele decidiu enfrentar seu medo. Foi ao zoológico e passou muito tempo em frente ao recinto dos leões. Ficou encarando aquele que considerava um inimigo. Forte, majestoso, imponente, o leão era um animal magnífico, disso ele não tinha dúvida.

Mas, a não ser ali, no zoológico, jamais encontrara um leão na vida. Nunca fora a um safari, era de uma geração em que os circos já não mantinham mais animais.

Por que então ele sonhava há anos com aquele felino? Não aquele ali do zoo, especificamente, mas um outro leão, imenso e que parecia estar sempre pronto a fazê-lo em pedaços.

Buscava em sua memória algum trauma do passado. Tinha certeza que aquele sonho deveria ter origem em algum trauma. Já perguntara aos pais, mas eles não se lembravam de nada.

Passou anos sem sonhar com o leão, mas nos últimos meses os pesadelos voltaram com tudo. Às vezes, ele se deparava em sonho com o leão na sala de sua casa; outras vezes o felino saltava o muro e o surpreendia; e em uma ocasião veio acompanhado de uma leoa.

O caso virou assunto frequente com a esposa e os amigos. Uma prima da mulher, esotérica, sugeriu que ele deveria tomar cuidado com os leoninos. Segundo ela, “certeza que era um aviso dos astros”. Outro amigo, mais analítico, acreditava que o sonho era uma metáfora, e ele deveria ser o leão de seus sonhos.

O fato é que de certa forma, com o passar do tempo, ele passou a gostar de ser o centro das atenções. Era só haver uma reunião de família ou de amigos que o assunto surgia e todos queriam saber de seu último sonho. Às vezes ele acrescentava alguns detalhes por conta própria, enfeitava um pouco o enredo com uma perseguição ou uma feroz luta entre ele e o rei da selva. Não fazia por mal, era apenas para satisfazer a curiosidade dos ouvintes, manter o interesse.

Recentemente, foi à casa dos pais. Sua irmã mais velha, que morava em outro Estado, viera para passar uns dias na cidade. A irmã, como visita, estava sendo o alvo das atenções. E ele não resistiu à tentação de tomar um pouco daquela atenção para si. Passou a contar o último sonho – inventado -, lamentar-se, fazendo a mãe afligir-se de preocupação.

A irmã ouvia tudo atentamente.

- Isso é por causa do Simão? – perguntou a irmã.

Ele calou-se. O nome era familiar, uma lembrança começava a se formar em sua mente.

A mãe também parecia recordar de algum Simão, até que a irmã esclareceu.

Simão era o leão de pelúcia dele na infância. E ele não largava aquele bichinho, com quem brincava e dormia. Era seu grande amigo. Um dia, por engano, o brinquedo foi parar na máquina de lavar misturado com algumas roupas. A costura abriu-se, o leãozinho perdeu um dos olhos e desbotou. O sorriso costurado no rosto também se foi.

- Você chorou uma semana, teve até febre – lembrou a irmã.

Aos poucos a mãe foi se lembrando do episódio. Ele nunca mais quis outro leão de pelúcia.

- Pronto. Está solucionado o mistério – disse a irmã, exultante.

Ele não disse palavra. Então todos aqueles anos imaginando que seus sonhos eram fruto de um trauma profundo ou que talvez fosse uma metáfora de algo grandioso, tinha origem em um bichinho de pelúcia?

Era humilhante demais. Como contaria isso à mulher e aos amigos? Deixaria de ser interessante aos olhos dos outros?

Mais tarde a mulher indagou se a irmã havia ajudado a lembrar de algo sobre os sonhos.

- Nada – mentiu ele -. Continua um mistério.

Ele nunca mais sonhou com o leão. Mas quando está com os amigos especializou-se em criar narrativas cada vez mais surreais de seus encontros com o “misterioso felino”. A mulher acabou descobrindo tudo sobre o bichinho de pelúcia. Mas prefere não confrontá-lo. Afinal, ela também acabou gostando de ser a esposa do homem dos sonhos perturbadores.

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