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Só o necessário


Angélica não era uma acumuladora. Longe disso. Mas gostava de “coisas”. E orgulhava-se por ter ainda os cadernos da época do primário. Porque os tinha ou que utilidade tinham ela não sabia responder. Mas acreditava que lembranças são preciosas e que era bom saber que em algum lugar da casa haviam as memórias de sua infância. Mesmo que ela jamais tivesse recorrido a elas desde que as enfiou em caixas e guardou em uma estante qualquer.

E como gostava de “coisas”, Angélica gostava de comprar. Acreditava não ser uma compradora compulsiva. Mas não resistia a comprar uma nova calça que combinava com a nova blusa que por sua vez ficava muito bem com aquele novo sapato. Era comum encontrar alguma peça no armário ainda com a etiqueta sem jamais ter sido usada.

Mas ela não se importava. Pensava que trabalhava demais e merecia uma recompensa. E desde o divórcio não sentia obrigação de prestar contas a ninguém. Nos últimos anos passou a colecionar porta-retratos. Havia de todas as formas e tamanhos, espalhados pela casa. Mesmo que não houvesse fotos para emoldurar, Angélica não se importava. Era para a coleção, justificava a si mesma.

Foi uma visita à casa de um cliente que deixou Angélica pensativa. A organização, o método e a sensação de tudo estar no lugar em que deveria estar quase a fez desviar-se do propósito profissional que a havia levado àquela casa.

Na sala de estar havia um único quadro na parede, o que fazia com que o olhar se direcionasse imediatamente para a obra. Um jogo de sofá e uma mesinha de centro com um único enfeite – pequeno. E um tapete branco. Sem almofadas ou móveis que atrapalhassem a passagem, nem sequer uma TV.

A cozinha era imaculadamente arrumada. Parecia que tudo estava à mão. Nenhum eletrodoméstico extravagante ou louças quase despencando dos armários. Só o estritamente necessário, mesmo que naquela casa vivessem um casal e três filhos.

Em todo ambiente em que entrava, Angélica foi sendo surpreendida pela ausência de “coisas”. E ao contrário do que se podia imaginar, era uma casa agradável, espaçosa, aconchegante e acolhedora. E a família sinceramente feliz.

Ao voltar à própria casa, Angélica sentiu-se triste. E foi tomada por uma imensa infelicidade ao fitar os preciosos porta-retratos vazios. A casa, que antes era seu orgulho, pareceu-lhe feia, desorganizada e pequena.

Sentada no escuro, fez uma avaliação de sua vida até ali. Já ouvira falar de pessoas que vivem apenas com o mínimo, mas sempre achou isso um absurdo. E também conhecia o outro lado, o das pessoas que se rendem à sociedade consumista. Ela percebeu que estava perigosamente flertando com essa segunda categoria.

O processo de desapego não foi imediato. Levou ainda algumas semanas para que ela finalmente se desfizesse de algo. E começou por algo importante. Tinha dois carros e nem ela entendia bem a razão. Vendeu um. Se conseguia desfazer-se de algo de valor conseguiria dar fim a outros objetos.

Na operação, descobriu que possuía 17 calças e parou de contar as blusas quando chegou a 32. Daria para abastecer uma loja com tudo o que retirou do armário. Foram meses de arrumações, limpezas, doações, vendas e reciclagem.

Descobriu que não precisava de lembranças de sua infância e nem de velhos CDs que jamais ouviria porque nem sequer tinha um aparelho para isso. Livrou-se de dúzias de utensílios de cozinha e enfeites que estavam por toda a casa sem trazer felicidade alguma.

Não se tornou uma minimalista, ainda mantém objetos que lhe agradam e vez ou outra cede a uma tentação de consumo. Mas sente-se mais livre, mais capaz e mais feliz. Dos antigos hábitos curiosamente conservou os porta-retratos vazios. Justamente para que não se esqueça que pessoas são mais importantes que “coisas”.

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