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Perfeitamente imperfeitos



Era de uma família infeliz. Ao menos era como definia os habitantes daquela casa. Tinha por vezes a sensação de que naquele lar ninguém era realmente feliz. Culpa talvez do pai, que trabalhava muito, ganhava pouco e quando estava em casa quase nunca conversava a não ser para dar uma bronca ou uma de suas intermináveis lições de vida. Ou culpa da mãe, que desde o momento em que se levantava da cama ocupava-se com tarefas domésticas, estava sempre lavando, passando, arrumando e cuidando dos irmãos menores. E quem sabe culpa dos irmãos mais velhos, que também trabalhavam, estudavam e cuja diferença de idade impunha um abismo.

Desde muito criança passou a admirar toda família que em sua mente parecesse feliz. Qualquer casal sorridente puxando uma criança pelas mãos ganhava imediatamente sua aprovação. Não sentia inveja, apenas tristeza por imaginar que todos à sua volta pareciam ser mais felizes, mais alegres e menos miseráveis.

À noite se transportava para um novo universo onde vivia com pais amorosos, irmãos afetuosos. Uma família que se reunia nas festas de fim de ano, que celebrava aniversários com presentes, bolo e refrigerante. Exatamente o oposto de sua realidade.

E de tanto sonhar com a família ideal um dia encontrou uma que se encaixava no modelo que desejava. Aquela amiga do colégio parecia viver uma vida de comercial de margarina. Ouvia-a contar sobre as férias na praia e se imaginava ela própria conhecendo o mar, pisando na areia e tentando entender como seria viajar em família. Sonhava que seu pai também iria buscá-la na porta da escola, como acontecia com a amiga. E que sua mãe a receberia em casa querendo saber como foi o dia na escola, exatamente como a amiga contava.

Passou a infância toda apenas imaginando a vida perfeita que a amiga tinha em casa, com pais atenciosos e irmãos que conversavam entre si.

Com a evolução da amizade frequentava cada vez mais a casa da amiga. E aos poucos foi vendo que alguns de seus conceitos acerca daquela família feliz estavam muito distantes da realidade. Os irmãos brigavam por qualquer bobagem, fosse porque um invadiu o espaço do outro ou usou uma roupa sem permissão. O pai era uma figura autoritária que impunha muito mais medo do que respeito. E foi no dia em que flagrou a mãe da amiga com os olhos vermelhos denunciando o choro que percebeu que Tolstói estava certo: “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”.

Os anos lhe trouxeram uma nova perspectiva sobre a própria família. Reconheceu o sacrifício do pai, que tinha dois empregos para que nada faltasse à família. Percebeu também o quanto de sabedoria havia nas suas lições de vida, com ensinamentos que iam acompanhá-la para sempre. Entendeu que a mãe igualmente se sacrificava para que todos vivessem em uma casa organizada, que era dedicada aos filhos e que jamais dormiu antes que todos estivessem em segurança em suas camas. E compreendeu também que nunca faltou respeito entre seus irmãos. Jamais houve uma briga sequer entre eles. Ao contrário, havia harmonia em sua casa.

Descobriu, por fim, que foi aquela família, a sua família, que moldou seu caráter, que definiu quem ela era. Tudo o que fez, realizou, conquistou, todas as alegrias e tristezas, perdas e ganhos, todas as decisões que tomou tinham de alguma forma relação com o que absorveu dos pais e irmãos. Sua família, afinal, não era infeliz. Era apenas imperfeita, como todas o são.

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