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  • Cotidiano em Crônicas

O quarto do filho

Atualizado: 20 de Nov de 2020

A corretora foi explicando que os móveis não estavam incluídos no preço da casa, mas se gostassem de algo poderiam negociar com os proprietários.

Leonardo e Clara ficaram impressionados em como era bem arejada. Convidativa.

- Você disse que a construção é dos anos 70, mas parece tão moderna – admirou-se Clara.

- Foi toda reformada há alguns anos. Presente das filhas para a mãe. Vem ver a cozinha, é um sonho – chamou a corretora.

Leonardo ficou ali na sala de estar, olhando os móveis, todos de excelente acabamento, coisa antiga, do tipo que não existe mais. Na sala de jantar, um buffet idêntico ao que havia na sua casa na infância. Um abajur, um vaso e uma bomboniere de cristal. Ele se pegou sorrindo. Até os enfeites pareciam os da casa em que cresceu.

Clara agora estava na área de lazer e chamava por ele.

- Leo, vem ver, é lindo aqui.

O acesso ao quintal se dava por uma porta francesa, conectando-se a um deque. O gramado era grande e ali se erguiam duas árvores, um ypê e um salgueiro-chorão. E o deque era ladeado por um jardim muito bem cuidado.

Dava vontade de sentar ali no fim de tarde, ler um livro, tomar um café.

- Devia dar trabalho cuidar disso tudo. Você disse que era uma viúva que vivia aqui? – perguntou Clara à corretora.

- Sim, as filhas me disseram que ela nunca quis se mudar, que gostava de viver sozinha. E adorava plantas.

Leonardo pensou na própria mãe, que também adorava flores e plantas, mas que nunca tivera muita paciência para cuidar delas. Era função do pai, que se mostrou um jardineiro muito melhor do que a mãe.

A corretora mostrou ainda um lavabo, a lavanderia – pequena, mas funcional -, a dispensa e uma sala no primeiro andar que poderia abrigar um escritório.

Subiram ao segundo piso, onde ficavam os quartos. A corretora avisou que os móveis dos quartos já haviam sido retirados pela família. A suíte era grande, com uma janela com vista para o jardim. Muito privativo e, ao que parecia, bastante silencioso.

Viram outros dois quartos de bom tamanho. Um deles parecia ideal para a filha do casal. Ficava bem ao lado de um banheiro social também reformado.

- Não entramos nesse quarto – disse Leonardo, parando em frente a uma porta, que era diferente das outras.

Todas as outras portas haviam sido trocadas por modelos mais modernos, menos aquela.

A corretora pareceu um pouco indecisa.

- Então... Acho que vocês não vão gostar desse quarto. Talvez seja melhor esperar que a família retire os móveis.

A curiosidade de Leonardo foi aguçada. O que havia de diferente naquele quarto?

Um pouco contrariada, a corretora abriu a porta para que o casal entrasse.

- Uau! Direto do túnel do tempo – exclamou Clara.

Leonardo ficou parado. Teve a sensação de estar diante de seu quarto da adolescência.

Clara olhava tudo com ar divertido.

- Nossa, mas parece que voltamos aos anos 80 – riu ela.

- Esse quarto era de um adolescente, filho da proprietária. Mas ele morreu em 1985. Tinha 15 anos – informou a corretora.

- Se fosse vivo teria... – Clara não chegou a completar a frase.

- A minha idade – adiantou-se Leonardo.

Clara achou tudo muito tétrico, quis saber do que tinha morrido o menino. “Acidente”, contou a corretora.

A corretora resumiu a história do quarto. A mãe jamais permitiu que nada fosse mudado desde o dia em que o filho morrera. E agora as filhas estavam decidindo o que fazer com os móveis e objetos que estavam ali.

- Mas não precisam se preocupar. Tudo será retirado imediatamente se vocês comprarem a casa – apressou-se em explicar.

Leonardo olhava um kit de laboratório de Química em uma prateleira. Tubos de ensaios, pipetas e canudos.

Clara aproximou-se.

- Aposto que você tinha um desses.

- Sim, tinha. Igualzinho – respondeu ele, pensativo.

- O Leo é professor de Química – explicou Clara à corretora.

As duas deixaram o quarto para voltar à cozinha, onde Clara se encantara com o conceito aberto. Mas Leonardo ficou.

Foi até a escrivaninha, onde estavam dois livros, um de Ciências e outro de Matemática, idênticos aos que ele usava no colégio. Algumas canetas e lápis – um deles com a ponta levemente mordiscada – estavam em um suporte perfeitamente alinhado com um bloco de anotações. Na estante, livros de séries de ficção e aventuras, iguais aos que ele leu na adolescência. O dono daquele quarto poderia ter sido seu colega de colégio, poderiam ter sido amigos.

Ele sorriu ao ver um ingresso para De Volta Para o Futuro na gaveta da escrivaninha. Será que ele chegara a ir? Será que se encontraram no cinema?

Leonardo fechou a porta respeitosamente.

Clara e a corretora comentavam sobre a funcionalidade da cozinha.

- Não tem fotos – disse Leonardo.

As duas o olharam surpresas.

- Como? – perguntou a corretora.

- Fotos. Não há nenhum porta-retratos ou fotos de família aqui.

- Ah, sim. A família já retirou. Creio que acharam que era muito pessoal para deixar aqui na visitação.

Leonardo nada disse, mas em pensamento lamentou. Queria saber como eram aquela mãe e aquele filho.

---

Depois do jantar, Clara espalhou sobre a mesa os folhetos com as informações das casas que visitaram.

- Eu gostei dessa aqui – disse ela, apontando para a foto de uma casa térrea, com portão salmão.

Leonardo nada disse.

- O problema é que é perto do centro e a razão para sairmos daqui é justamente sossego – comentou a mulher.

Clara foi enumerando as características de cada casa: espaçosa, mas muito cara; moderna, mas tem piscina, o que não precisavam; velha demais; pequena demais.

- E tem a que vimos por último.

Ela passou o folheto para Leonardo, que ficou fitando a foto do sobrado de tom creme.

- Para dizer a verdade, eu gostei bastante dessa casa. Aquele quarto ao lado do banheiro social é ideal pra Malu, quando ela vier da faculdade.

Leonardo achava graça na convicção que a mulher tinha de que a filha voltaria a viver com eles quando terminasse a faculdade.

- O único problema é aquele quarto – disse ela.

- Que quarto? – perguntou ele, fingindo não saber ao que Clara se referia.

- Ora, Leo, o quarto do menino morto. Sei lá, me dá arrepios.

- Quase toda família tem alguém que já morreu e que ocupava algum quarto, Clara. Se for assim, não vamos comprar casa alguma.

Ela pensou um pouco.

- Você gostou bastante dessa casa, não é?

Leonardo assentiu. Sim, ele havia gostado. Daquele quarto especificamente.

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Ele voltou sozinho à casa alguns dias depois. Apanhou as chaves com a corretora, com a desculpa de que queria mostrar o sobrado aos pais.

Subiu imediatamente ao quarto.

Leonardo ficou alguns segundos parado à porta antes de entrar. Olhou em volta e tudo estava exatamente como da primeira vez que ali estivera.

Sentou-se na beira da cama, com o máximo de cuidado, como se não quisesse incomodar alguém que ali descansava.

Alisou a colcha azul clara de listas brancas e até tentou puxar pela memória para saber se tinha uma igual em sua cama de adolescente, mas não conseguiu lembrar-se.

Abriu o armário e viu as roupas perfeitamente arrumadas em cabides, prateleiras e gavetas. Olhou maravilhado um par de patins. Aquele havia sido seu objeto de desejo, mas os pais jamais compraram. Tinham medo que ele se machucasse. As rodinhas não estavam muito gastas. Provavelmente os pais daquele garoto também não o deixavam andar muito por aí de patins.

Reviu os livros na estante e os cadernos na escrivaninha. Imaginou aquele adolescente debruçado ali sobre livros e cadernos, concentrado.

Ao abrir um livro de Matemática, encontrou um bilhete dobrado.

“Mãe, fui à biblioteca. Volto logo.”

Leonardo admirou a gramática perfeita. Biblioteca. Ele também ia muito à biblioteca na adolescência. Aquele deveria mesmo ter sido um garoto muito inteligente. Muito mais do que ele próprio, imaginou. Teria sido aquele o último bilhete deixado pelo filho? Teria sido no dia em que morrera? Por isso, a mãe o guardara com tanto cuidado?

E então ele pensou na mãe, visitando o quarto todos os dias. Sentando-se ali e conversando com o filho morto. Cuidando com tanto zelo das memórias do filho, transformando aquele quarto em um relicário.

Muita gente deve ter criticado aquela mãe. Mas ele entendia. Entendia e respeitava. Cada um sabe o tamanho de sua dor e como enfrentá-la.

Leonardo tomou fôlego e depois baixou a cabeça.

“Senhora... Vou chamá-la assim porque não sei seu nome.

Senhora, pretendo comprar sua casa. E infelizmente não vou poder conservar esse quarto como está, porque não tenho esse direito, não seria certo. Mas eu lhe prometo, senhora, que vou respeitar esse espaço. Ninguém nunca vai usá-lo novamente como quarto de dormir. Vou cuidar para que seja um local agradável, onde pretendo passar muito tempo, assim como a senhora fazia.

Sou pai, mas nem sequer posso imaginar a dor que a senhora sentiu ao perder um filho. E espero que ao entrar aqui, cuidar das lembranças do seu menino, a senhora tenha conseguido amenizar sua dor.

Permita, senhora, que eu seja o novo morador dessa casa e o novo guardião das memórias de seu filho.”

Leonardo calou-se. E não sabia exatamente o que esperar depois de seu breve discurso. Preparou-se para ir embora e foi então que viu na gaveta da escrivaninha a pontinha de uma foto, escondida quase no fundo.

Ali estavam mãe e filho, em uma imagem já meio gasta pelo tempo. Ela o abraçava e ele exibia um sorriso um pouco constrangido, exatamente como fazem os adolescentes ao serem alvo do afeto dos pais. Era um garoto bonito, alto para a idade e com olhos inteligentes. A mãe parecia a mais feliz das criaturas.

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Já fazia quase um mês que haviam se mudado e Clara ainda não terminara de desempacotar coisas. Leonardo sabia que a mulher ainda levaria muito tempo para deixar a casa como queria.

Do segundo andar, ele podia ouvi-la lá embaixo, cantarolando e arrastando móveis. Ele estava corrigindo provas em seu novo escritório. Ou “o quarto” como se referia Clara. Passava muito tempo ali. Preparava as aulas, lia. A decoração era nova. Uma mesa de trabalho maior e estantes novas para seus livros.

E em uma prateleira, o kit de laboratório de Química.


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