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  • Cotidiano em Crônicas

O ciclo da vida

Atualizado: 20 de Nov de 2020


A mãe de Juliana teve o primeiro filho aos 13 anos. E depois vieram mais 6, de pais diferentes. O pai de Juliana morreu pouco depois de ela nascer.

A irmã de Juliana repetiu a sina e foi mãe aos 13 e antes dos 30 anos já tinha cinco filhos. Também de vários pais.

Essa era a vida que a Juliana, ou Juju, conhecia. Em uma casa de três cômodos viviam a Juju, a mãe, o atual padrasto – porque os companheiros da mãe iam e vinham -, a irmã com seus cinco filhos pequenos e um irmão mais velho, dependente de drogas. Dez pessoas em um espaço onde mal cabiam duas.

Os outros irmãos da Juju estavam espalhados pelo mundo. Alguns ela não via há anos.

Juju só ia à escola porque o Conselho Tutelar notificou a mãe e o padrasto.

Juju não se interessava muito pela escola, mas gostava de ter o que comer. A merenda era boa.

Aos 7 anos, ela conheceu a Gabi. Era sua primeira amiga. As duas tornaram-se inseparáveis.

Um dia Juju foi à casa da Gabi. Descobriu que a amiga também era pobre, mas a casa era limpa e organizada. Gabi tinha roupas que eram só dela. A geladeira estava cheia de comida. E ela e o irmão tinham um lugar para estudar. Os pais da Gabi eram amorosos e carinhosos.

Juju não sabia que havia gente assim no mundo. E decidiu que queria ser como a Gabi.

Gabi era estudiosa e ótima aluna. E Juju também passou a estudar. Todos os dias depois da aula, ia para a casa da amiga, faziam as lições e a Juju ficava encantada com as coisas gostosas que a mãe da Gabi cozinhava.

Numa reunião de pais, a mãe da Juju foi à escola a contragosto, mas ouviu a professora elogiar a filha. “Dedicada, inteligente”, disse a professora. Juju ficou feliz com a atenção que recebeu da mãe, que disse que estava orgulhosa dela e até contou ao padrasto os elogios que ouviu na escola.

Juju passou a estudar mais ainda. Ia ser alguém um dia. Ia ter uma família igual à da Gabi.

Mas o entusiasmo da mãe durou pouco. Na reunião de pais seguinte ela não apareceu. E passou a implicar com a Juju, que não largava os livros e cadernos, que não trazia dinheiro para casa como os irmãos. “Estudar não põe comida em casa”, era o que a mãe dizia. Os irmãos da Juju mendigavam nas ruas, mas ela não queria ser assim. Queria mesmo é estudar.

Um dia o padrasto bebeu mais do que de costume, brigou com a mãe da Juju e sem razão alguma colocou fogo nos livros e cadernos da menina.

Juju correu para a casa da Gabi, aos prantos. Os pais da amiga chamaram o Conselho Tutelar.

A mãe da Juju ameaçou os pais da Gabi. Disse que conhecia gente perigosa. Os pais da Gabi ficaram com medo e mudaram a filha de escola. Terminava assim a amizade das duas.

Juju insistiu em tentar estudar, mas foi perdendo a vontade. Ninguém na família valorizava, ninguém dava atenção.

Aos 12 anos, Juju conheceu um menino do bairro, mais velho, e que vivia de pequenos furtos. Ele dava presentes pra Juju e até dinheiro. E, assim como aconteceu com a mãe e a irmã, a Juju ficou grávida aos 13 anos. Foi morar nos fundos da casa da sogra.

Nunca mais voltou à escola. Aos 20 anos, tem quatro filhos. “Todos do mesmo homem”, orgulha-se ela. Mas quando perguntam onde está o pai das crianças, ela desconversa. Não quer contar que ele está preso.

Outro dia a filha mais velha da Juju trouxe um comunicado para ela assinar. Reunião de pais na escola. Juju não assinou. E jogou o papel no lixo.

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