Buscar
  • Cotidiano em Crônicas

Laura no Consultório

Atualizado: 20 de Nov de 2020

O Doutor estava “um pouquinho” atrasado. Foi o que informara a recepcionista. Laura sabia que o substantivo significava, na verdade, que sua consulta ia atrasar muito e não “pouquinho”.

Não importava. Não tinha nenhum compromisso, nenhum lugar para ir ou pessoa para ver.

Seis pessoas aguardavam na sala de espera. Ela sentou-se próximo à janela, abriu seu Jane Austen – estava em uma fase Jane Austen -, mas ficou com o livro sobre o colo.

Observou aquelas outras seis pessoas, sentadas em absoluto silêncio, cada qual com os olhos vidrados na tela dos celulares. Pareciam em transe, e provavelmente nem haviam percebido que mais uma pessoa se juntara ao grupo de pacientes.

Laura consultou seu próprio celular sem tirá-lo da bolsa. Nenhuma ligação, nenhuma mensagem. É o que acontece quando não se interage com ninguém.

Ainda com o livro sobre o colo procurou uma revista. Talvez uma dessas publicações fúteis sobre que roupa usar nas festas de fim de ano ou qual simpatia recorrer para ter sorte no ano que começaria em breve. Mas não havia revista alguma. Nem sobre futilidades nem sobre notícias.

- Não existem mais revistas – pensou Laura.

Nem jornais.

Ao menos não no formato que ela conhecera, impresso. Tudo era digital. E digital Laura não gostava. Ainda era das poucas pessoas que frequentavam livrarias – se houvessem livrarias, porque para comprar livros ela agora precisava recorrer ao virtual. Mesmo assim comprava no formato impresso.

Mas aquele Jane Austen ela comprou em uma feira. Deparou-se casualmente com a feirinha e ficou encantada. Os livros estavam dispostos em mesas e estantes de metal. Os olhos de Laura brilharam ao encontrar tantas novas histórias e gostaria de ter passado a tarde toda ali, folheando, sentindo o cheiro de livro novo, lendo as resenhas de capa. Mas o olhar impaciente da vendedora que não parava de abordá-la e perguntar se precisava de ajuda a desencorajou.

Quem frequenta livrarias quase nunca precisa de ajuda. Os vendedores não entendem o prazer que sentem os leitores em circular em meio àqueles amigos de papel, admirar as capas, encontrar um antigo livro já lido na adolescência e que agora ganhou uma nova edição mais caprichada. Não, os vendedores não entendem, a maioria das pessoas não entende.

E Laura deixou a feirinha carregando “Persuasão”, que lhe foi entregue em uma sacolinha plástica, que ela deixou sobre o balcão. Tinha consciência ecológica e no mais adorava carregar um livro.

Laura aprendeu que livros intimidavam as pessoas. Quase ninguém tem coragem de se aproximar de alguém que lê um livro sozinho em uma cafeteria. Revistas eram mais amigáveis, ninguém se incomoda de interromper alguém que folheia uma revista. Mas isso era antigamente, porque hoje nem existem mais revistas.

Mas a companhia de um livro a salvara em várias ocasiões em que não queria conversar. E descobriu também que as pessoas ao redor de um leitor parecem não tomar consciência de sua existência, por isso conversam livremente entre si sem se importarem se estão sendo ouvidas. Foi assim naquela vez em que ouviu um pai que tentava explicar aos dois filhos adolescentes porque estava se separando da mãe deles. O pai fez um longo discurso, que parecia ter sido pensado e ensaiado inúmeras vezes. E Laura já estava até simpatizando com o pai quase divorciado, quando um dos filhos o interrompeu, perguntando se ele iria morar com a jovem com quem ele mantinha um caso há 3 anos. Laura não esperou para ver como a conversa terminava. Sentiu-se constrangida pelo pai.

Mas, ali no consultório ela não precisa de um livro para não ser incomodada. Ninguém olhava ninguém. E com a vantagem de não haver contato visual, Laura dedicou-se a uma de suas manias prediletas. Gostava de observar as pessoas. Era estranho que alguém que não gosta muito da companhia dos seres humanos sentisse prazer em observá-los? Ela sempre se perguntava isso, mas não encontrava uma resposta satisfatória.

Sentia curiosidade, tentava ler expressões e traçar personalidades baseada apenas na simples observação. O grupo na sala de espera era composto por duas mulheres de meia idade, um homem de cerca de 40 anos, um rapaz que mal saíra da adolescência e duas jovens que pareciam estar juntas.

Que problemas eles teriam para discutir com o terapeuta? O rapazinho, por exemplo, com a velocidade que digitava no celular, parecia sofrer de ansiedade. Mas, todos os adolescentes hoje sofrem de ansiedade.

Das duas mulheres de meia idade, uma parecia muito triste. De fato, os olhos tinham um brilho de quem havia chorado muito recentemente. O nariz avermelhado confirmava a suspeita. Só pela observação, Laura diria que entre todos ali essa mulher era quem mais parecia estar precisando de terapia.

O que será que as pessoas contam ao terapeuta?

E Laura se deu conta de que ela própria nunca sabia o que dizer. Não tinha o que contar porque sua vida se resumia ao trabalho e à casa. E como trabalhava em casa, quase nunca saía e assim não tinha nada a narrar.

Na última consulta passou os 40 minutos da sessão falando sobre política. Inventou que o governo a irritava e a entristecia. Sim, o governo a irritava e a entristecia, mas não a ponto de precisar de terapia.

Em uma das primeiras sessões, o terapeuta perguntou sobre sua infância. Laura achava que todos os terapeutas perguntavam sobre a infância, afinal deveria haver alguma relação. Se as pessoas são tristes, infelizes, deprimidas ou mal resolvidas a culpa provavelmente é dos pais, é o que deveriam pensar os terapeutas. Mas seus pais foram boas pessoas. Não se lembrava de traumas de infância. Será que deveria ter inventado algum trauma?

Ela só estava ali porque a irmã insistira. “Você precisa sair de casa, fazer amigos, conhecer gente”, dizia a irmã. Mas, para quê?, perguntava Laura. “É isso que as pessoas normais fazem”, retrucava a irmã. Então, se ela não fazia é porque não era uma pessoa normal. E pessoas “anormais” vão ao terapeuta.

Laura olhou pela janela. Um senhor já bem idoso puxava um carrinho, desses que os coletores de reciclagem usam. O peso fazia o homem empregar uma imensa força pela rua. Estava rindo. Laura não sabia de quem ou para quem, mas o idoso ria. E o peso do carrinho parecia não incomodá-lo porque sua força vinha da capacidade de rir.

Num impulso Laura levantou-se e foi até a recepcionista. Cancelou a consulta.

A recepcionista apanhou a agenda e passou a ver uma nova data.

- Tenho um horário na próxima quarta-feira.

- Não, não precisa.

A recepcionista começou a folhear a agenda.

- Depois vamos ficar sem horários, porque o Doutor vai tirar férias. Só se houver um cancelamento.

- Não faz mal – disse Laura.

A recepcionista pareceu um pouco confusa.

- Você quer deixar marcado para o começo do ano?

- Não, obrigada.

Ela saiu antes que a recepcionista fizesse mais alguma pergunta. Na sala de espera, ninguém levantou os olhos do celular. Ninguém a viu entrar e nem a viu sair.

E ao chegar à rua, Laura sorriu. E depois riu.


22 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Amigos

 

Formulário de Inscrição

  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn

©2020 por Cotidiano em Crônicas. Orgulhosamente criado com Wix.com