Buscar
  • Cotidiano em Crônicas

Discurso da sinceridade



Caros cidadãos,


Dirijo-me a vocês com palavras escritas de próprio punho porque nenhum de meus assessores quis redigir esse discurso. Ao contrário, aconselharam-me a não fazê-lo. Mas, vejam bem, algumas coisas precisam ser esclarecidas.

Meu filho, que acaba de chegar da Europa, onde esteve estudando – e divertindo-se a maior parte do tempo -, veio com a ideia de que a sinceridade está na moda. Segundo ele, as pessoas estão mais bem informadas – o que discordo em parte, já que se assim fosse eu jamais teria sido eleito – e que simpatizam com políticos que falam a verdade. Isso é uma total novidade para mim, já que menti a vida toda e estou há mais de 30 anos ocupando cargo público.

O fato é que meu filho convenceu-me a ser sincero. O que, esclareço, nada tem a ver com honestidade. Sendo assim, sou forçado a admitir que a estada de meu filho na Europa foi, sim, bancada pelos contribuintes, exatamente como denunciaram meus adversários durante a campanha e que eu neguei veementemente.

Aliás, aplaudo meus adversários pelas denúncias apresentadas contra mim, quase todas verdadeiras. Mas os repudio pela incompetência de não conseguirem provar nada. Eu disse “quase” todas as denúncias são verdadeiras porque é falsa a alegação de que tenho patrimônio na casa dos milhões. Mentira! Todas as minhas propriedades, empresas e ações estão em nome de terceiros, portanto, tecnicamente meu patrimônio é aquele mesmo que consta em minha declaração de bens.

Falemos agora de meu plano de governo. Caríssimos, estou convicto de que vocês sabem que não irei fazer praticamente nada do que prometi em campanha. Ora, se já não fiz em meus governos anteriores por que razão faria agora? Vocês sabiam disso, não é mesmo? Afinal, me elegeram pela quarta vez, portanto, já sabem que sou aquele que promete tudo e nada realiza.

E, convenhamos, como eu vou construir um novo hospital se nem sequer tenho intenção de pagar as atuais dívidas da saúde? Mais escolas? Não há dinheiro para contratar mais professores. Aliás, que chatos são esses professores, só reclamam. Imagine se quero ter mais deles em meu governo. Segurança? Minha sugestão é que vocês comprem armas, já que está na moda agora defender o porte.

Deixo aqui meu veemente protesto por vocês reclamarem sempre das mesmas coisas. Ninguém elogia as flores que mandei plantar no canteiro da entrada da cidade, próximo de onde resido, nem a linda homenagem que prestei a meu falecido avô, construindo uma estátua na praça central.

Sobre a falta de asfalto nos bairros. Cidadãos e cidadãs, por acaso os moradores da periferia têm condições de ter carro? Óbvio que não. Então, para que asfalto? Reclamam de poeira, lama, mas antigamente nem existia pavimentação, as ruas eram todas de terra e ninguém morreu por causa disso – não que eu saiba. Vamos fazer uma imersão no passado, é saudável, é nostálgico (só não façam uma imersão no meu passado, porque há coisas que não quero que sejam descobertas).

A respeito dos desvios de verba que me acusam, é uma questão de ponto de vista. Raciocinem comigo. Como poderia eu manter meu padrão de vida, as viagens ao exterior e as plásticas de minha terceira esposa com o mísero salário que recebo dos impostos de vocês? Tenho certeza que todos concordam comigo que é impossível. E sei que vocês se sentem orgulhosos por ter um líder que é tudo aquilo que vocês gostariam de ser.

Por fim, meus caros amigos... Vocês também sabem que chamá-los de amigos é apenas uma forma de expressão, já que não considero nenhum de vocês amigos e nem queria tê-los em meu seleto e refinado grupo de amizades, não é?

Mas, continuando: meus caros amigos (estou rindo ao escrever isso), sei que daqui a quatro anos poderei contar novamente com vocês, principalmente agora que adicionei mais um epíteto à já extensa lista de nomes pelos quais me chamam. Serei, assim, o “candidato sincero”.

Sei que pesa a meu favor o fato de jamais algum político ter sido tão verdadeiro com seus eleitores. Reflitam sobre isso enquanto estarei em Miami – pela terceira vez este ano – para minhas merecidas férias porque ninguém é de ferro.


Sinceramente,


O mais verdadeiro dos candidatos.

23 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Amigos

 

Formulário de Inscrição

  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn

©2020 por Cotidiano em Crônicas. Orgulhosamente criado com Wix.com