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  • Cotidiano em Crônicas

Crônica de um Casamento

Atualizado: 20 de Nov de 2020

Eram bem parecidos aqueles dois. De origem humilde, muito religiosos e de gostos simples. Formavam um casal simpático.

Do namoro para o casamento passaram-se menos de dois anos. A família dele achou tudo muito apressado. A família dela achou perfeito.

Foram morar em uma casinha simples, de fundos. Mas estavam felizes.

Um ano depois nasceu a primeira filha. A família dele achou tudo muito rápido. A dela achou que era assim que devia ser.

Os dois trabalhavam muito. E economizavam muito. Queriam ter uma casa melhor, um quarto para a filha recém-nascida.

Os pais dela visitavam o casal duas vezes na semana. E no domingo era sagrada a macarronada em família. Família dela.

A família dele quase nunca visitava. Acreditava que o casal precisava de privacidade.

Ele conseguiu uma promoção, passou a ganhar mais e começou a construir uma casa. A primeira coisa que ela fez foi parar de trabalhar, mesmo sob os protestos dele, afinal não eram ricos.

No dia em que se mudaram para a casa nova, os sogros dormiram lá, mesmo morando só a alguns quilômetros deles. Ele achou que devia ser porque estavam cansados depois de ajudar na mudança. Estranhou, mas aceitou.

E uma semana depois da mudança, a mulher anunciou que estava grávida. Ele apavorou-se. Estavam cheios de contas e não planejaram mais um filho. Ela o acusou de insensível. A família dele achou que faltou sensatez. A família dela comemorou a chegada de mais um bebê.

Numa noite, ao chegar tarde e cansado do trabalho, encontrou os sogros dormindo no quarto da filha mais velha. “Eles vieram ajudar. É só hoje”, disse a mulher. Ele não gostou, mas calou-se. E os sogros ficaram uma semana.

As cunhadas e cunhados passaram a frequentar tanto a casa que ele começou a suspeitar que estivessem morando ali. As contas aumentavam, porque os cunhados adoravam fazer festas e receber visitas. Com o dinheiro dele. Na casa dele.

Um dia, encontrou novos rostos na casa. “São meus parentes de Minas”, explicou ela. Ficaram 15 dias e ele foi dormir na casa da mãe para dar espaço aos novos parentes.

No dia que a filha mais nova completou dois anos, a mulher anunciou que dois primos estavam vindo para passar uma semana ali. “Por quê?”, indagou ele. “Por que... ora, e precisa de razão?”, rebateu ela. Precisava, mas ela não deu.

Os primos vieram e não foram mais embora. Estavam procurando emprego, dizia ela. Dois novos inquilinos, mais despesas. A família dele alertou. Aquilo não estava certo. A família dela adorou a novidade.

Aos poucos ele parou de vir jantar em casa. Comia na rua, ficava até tarde no trabalho. Em casa não havia mais privacidade e a cada dia era um novo parente que aparecia e se juntava aos que já estavam por ali.

O casal, que antes era muito parecido, distanciou-se, não tinham mais o que conversar. A mulher só falava dos parentes e das fofocas de família. Ele pensava nas contas que se acumulavam, nas filhas que nunca conseguia ver e na mulher que já nem reconhecia mais.

Decidiu tentar uma reconciliação. Iriam para a praia, ele, mulher e filhas. Um feriado em família. A mulher perceberia o quanto é bom estarem apenas eles, se divertiriam, seria um recomeço.

Na hora da partida, ele deparou-se com os sogros, cunhadas, cunhados e sobrinhos. E os primos de Minas. Todos de malas prontas, todos fazendo a algazarra de costume.

Foi a gota d’água. Não foi para a praia. E quando ela voltou, encontrou a casa vazia.

Ele mudou-se para um apartamento modesto, mas muito silencioso. Pediu o divórcio e começou a namorar uma moça órfã e sem irmãos. Passa os finais de semana com as filhas. Está feliz.

Ela ficou com a casa, mas o padrão de vida caiu. Precisou voltar a trabalhar. Os parentes foram embora. A família dela acha que ela ficou muito diferente, que só fala dele. Não aguentam mais. A família dele disse lamentar o desfecho, mas secretamente e discretamente comemorou.


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