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  • Cotidiano em Crônicas

Correspondências



Nenhum dos dois sabia exatamente como começou aquele ritual de troca de cartas. Mas foi na adolescência. Haviam se tornado amigos há pouco tempo, eram leitores vorazes e mesmo com diferentes preferências, as conversas entre ambos sempre os remetiam aos livros. Trocavam impressões, recomendavam obras um ao outro, comentavam sobre seus autores favoritos – o dela sempre foi Érico Veríssimo e ele preferia o gótico de Poe.

A primeira carta foi iniciativa dele. Isso ambos lembravam. Mas nem mesmo ele sabia exatamente o que o motivou a escrever, já que moravam há apenas alguns quarteirões de distância. A carta chegou em uma tarde de sábado e ela leu deliciada aquele registro cuidadoso feito em papel pautado e com a bela caligrafia que denunciava o gosto pela escrita.

Ele comentava sobre sua mais nova descoberta literária, “1984”. Contava suas impressões ao narrar a trajetória do personagem Winston, sua solidão, o inconformismo com um sistema repressor e a paixão avassaladora por uma revolucionária.

Ela preparou a resposta assim que terminou a leitura. Mas não falou de nenhum livro. Sua primeira carta ao amigo foi sobre a felicidade que sentia em encontrar alguém com quem pudesse compartilhar os mesmos desejos, anseios e pensamentos.

Quando se encontraram comentaram sobre as cartas, mas não definiram que aquilo se tornaria um ritual. Mas assim foi. Uma vez por mês, às vezes até duas, ambos se escreviam. E com o passar do tempo, as cartas foram ficando mais filosóficas e intimistas. Ele, certa vez, escreveu seis páginas sobre a profunda tristeza que sentia por uma paixão não correspondida. Muitas vezes eram temas que não comentavam pessoalmente, mas as cartas permitiam a intimidade.

Os dois seguiam vidas diferentes, estudando em cidades distantes. Mas a troca de cartas permanecia. Em alguns períodos não tão frequentes, mas mantinham o hábito que tanto sentido fazia à vida de ambos.

Com o avanço da tecnologia, um dia ele decidiu apelar ao correio eletrônico. Era mais prático, defendia o amigo. Ela estranhou, gostava da letra do amigo, de esperar a chegada da correspondência. Mas cedeu, afinal não se pode ir contra o progresso e quase ninguém mais enviava cartas. E como agora residiam em cidades diferentes, era mais ágil. Contudo, ela notou que ele escrevia menos, eram poucos parágrafos, já não havia mais o tom intimista de antes.

Quando ela decidiu casar, apressou-se em contar a novidade ao amigo. Escreveu um longo relato sobre o noivo, a cerimônia simples que planejava, a felicidade que sentia e os planos que povoavam sua mente. Ele respondeu em apenas três linhas, e mesmo que demonstrasse efusivamente a alegria que sentia pela amiga, ela ficou decepcionada com a carta quase lacônica. Ele não foi ao casamento. Tinha compromissos. E avisou-a por e-mail.

A novidade das mensagens instantâneas ainda não havia contaminado nenhum dos dois. Mas um dia chegou. Um olá da parte dele, celebrando o fato de que agora poderiam manter contato mais frequente. Ela respondeu quase que imediatamente. Também aprovou o novo canal de comunicação. Manteriam mais contato.

Hoje costumam trocar apenas cumprimentos em datas comemorativas, como aniversários e Natal. Nunca mais do que duas linhas. Mas sentem saudades da época das cartas escritas à mão, de esperar o Correio, de sentar-se e escrever longas páginas sobre livros, sobre a vida. E ainda guardam todas as correspondências.

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