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  • Cotidiano em Crônicas

Carta para você

Atualizado: Abr 5


Dia desses percebi que em breve serei mais velha do que você.

É só um detalhe, talvez até meio bobo, entre tantas consequências da sua ausência. Mas, a mim, teve um efeito muito profundo e intenso porque altera a ordem natural da vida. Em um mundo ideal, eu jamais seria mais velha do que você. Em um mundo ideal – meu mundo ideal – você estaria olhando o calendário e anotando o dia para me cumprimentar.

Mas eu já não recebo mais aquela sua ligação, que completava meu dia, me fazia sorrir. E sorrir é algo que a gente vai reaprendendo a fazer. Um simples movimento de músculos, que aos poucos vamos tentando exercitar novamente, quase para não esquecer como se faz.

Quando você era mais velho do que eu, sentia que havia uma responsabilidade maior sobre os seus ombros. Será que essa responsabilidade agora é minha?

Será que eu dou conta?

Afinal, você era “mais”. Mais inteligente do que eu, mais engraçado, mais divertido. E ser coadjuvante na sua presença nunca foi demérito. Ao contrário, era privilégio.

Às vezes, eu divergia do seu pensamento, mas preferia não dizer. Não havia mal algum em escutar as suas teorias, as suas filosofias e, mesmo pensando diferente, deixar que você expusesse à vontade. Não era temor pelo confronto, porque sua personalidade não permitiria nenhuma rispidez. Mas era respeito. É respeito. Ainda. Esses verbos no passado me confundem, me entristecem. Porque você não é passado, não pode ser estando assim permanentemente no meu presente.

Quando fui entendendo você um pouco mais, me peguei pensando que eu deveria ser mais parecida com você. Porque eu sempre fui da teoria, e você da prática. Eu imaginava maneiras de ser uma pessoa melhor, fazer algo pelo mundo; você agia.

E, veja só, por sua causa passei a acreditar em coisas que antes negava existirem. Talvez seja pela necessidade que faz com que desejemos tanto que exista algo “além”, que passamos a pensar que, ora, quem sabe...

E, assim, pode ser que eu esteja completamente errada e você segue por aí, envelhecendo a cada ano, vivendo uma nova vida da forma que você acreditava que era. Quem conhece verdadeiramente o universo? Quem é que sabe todas as respostas? Gosto de imaginar que, agora, talvez você saiba e, um dia, irá rir de mim e dizer que ser mais velha do que você era apenas pretensão e vamos juntos celebrar todas as datas perdidas.

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