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Amigos


Era desses grupos de amigos que sempre se reúnem para um chope. Duas ou até três vezes por mês era sagrado se encontrarem. Consideravam-se íntimos. Frequentavam a casa um do outro, as esposas se conheciam, os filhos se conheciam, davam jantares, promoviam reuniões.

Victor ia uma vez por ano. E sofria. Porque detestava.

Conhecia todos desde a infância. Estudaram juntos, com um deles até frequentou a mesma faculdade. Mas sentia-se um peixe fora d’água nos encontros. Em grande parte por culpa dele mesmo. Já que nunca ia às reuniões mensais e nem mesmo ao chope, estava sempre à margem dos assuntos. Os amigos falavam de pessoas que ele não conhecia e viagens as quais ele não foi.

Quando convidado, Victor se esquivava como podia. É o trabalho, é a mulher, são os filhos. Ele sabia que os amigos suspeitavam da veracidade das justificativas, mas não se importava.

Uma vez por ano, no entanto, sentindo que era uma obrigação, lá ia Victor passar duas ou três horas na companhia daquelas pessoas com as quais deixara de se identificar já na juventude.

A mulher, que muito raramente participava de algum jantar com o grupo, concordava com o marido. Não se identificava com ninguém e por mais que tentasse se enturmar com as outras mulheres não tinha êxito.

Victor preferia os amigos que fizera junto com a mulher desde a época de namorados. Pessoas mais maduras, mais tranquilas e mais intelectuais como eles, e que não sentiam essa necessidade de estar sempre em bando. Eram encontros pontuais, jantares agradáveis, com pouca gente, conversa sobre política, livros, cinema. Tudo muito ameno, tudo como Victor gostava.

O que mais o incomodava no outro grupo era a insistência em falar do passado. E um passado reciclado e lustrado para parecer melhor do que foi. Por várias vezes, Victor pegou-se tentando puxar pela memória algum episódio comentado e tinha certeza que não havia ocorrido daquela forma.

Eles nunca foram populares no colégio, nem tampouco fizeram sucesso com as meninas. E aquelas aventuras que os amigos contavam repletas de detalhes? Victor estava convencido de que nunca aconteceram. Todos eles tiveram vidas bem comuns, sem grandes dramas, problemas ou emoções. Seria uma necessidade de autoafirmação ou um desejo de se reinventar? Mas para impressionar quem?

Victor não encontrava respostas e também já desistira de dizer que não se lembrava deste ou daquele episódio. Ninguém lhe dava atenção. Na verdade, nesses encontros Victor fechava-se em um mutismo quase absoluto. Nada tinha a dizer e ninguém parecia mesmo interessado em ouvi-lo.

Próximo de um desses encontros, quando Victor já começava a sofrer por antecipação, encontrou casualmente no shopping com um dos amigos, aquele com quem estudara na faculdade. Ele até tentou passar despercebido, mas o amigo o viu, chamou e convidou para um chope. Victor varreu a memória em busca de alguma desculpa, mas antes que se desse conta, o amigo já estava arrastando-o para a praça de alimentação.

Conversaram sobre amenidades, até que o encontro que estava prestes a acontecer foi mencionado.

- Você vai, não é? – perguntou o amigo.

Victor confirmou.

- É cansativo, sabe? – disse o amigo, uma ponta de constrangimento, enquanto circulava a borda do copo com o dedo.

- O quê? – perguntou Victor.

- Ah, essa mania de estar sempre juntos. É dose. Você tem sorte de viver ocupado e não poder ir.

Victor estava surpreso. Mais do que isso. Estupefato. Então, havia mais alguém que pensava como ele?

E o amigo, talvez encorajado pelo segundo chope, foi contando. Disse que praticamente todos pensavam assim, que ninguém suportava aqueles encontros tão frequentes e que na verdade havia no grupo quem se detestasse.

- O Carlão e o Gil tiveram uma briga feia há alguns anos por causa de dinheiro emprestado e que nunca foi pago. Se odeiam. Mas fingem que esqueceram. Tudo em nome do grupo. Bobagem. Vivem dando indireta um no outro. Você não percebe porque não vai.

Victor pediu mais dois chopes. E o amigo prosseguiu.

- A verdade é que quase todos ali têm um casamento horroroso. O Guilherme já separou da mulher duas vezes. Não sabia? Pois é. Pra suportar ficar junto com a mulher, precisa de gente perto.

E era o mesmo caso do Fulano. E do Beltrano. O amigo ia enumerando histórias.

- Juro pra você, um dia não apareço mais. Só pra não ver a cara de dois ou três ali. Já reparou que eles nunca falam de política, religião e nem sobre as notícias? Não pode, sai briga. Cada um com uma posição diferente sem respeitar a opinião do outro.

Victor ouvia tudo atentamente. Um novo quadro sobre o grupo de amigos se formava em sua mente. Seria mais correto dizer que era um grupo de inimigos.

Os dois se despediram, o amigo pedindo sigilo sobre as coisas que contou e Victor garantindo que jamais comentaria nada com os outros.

Cumpriu a promessa. Mas contou tudo à mulher.

E no próximo encontro o casal apareceu. E também em vários outros. Tornaram-se presença constante.

Encaram essas ocasiões como experimentos sociais, que depois discutem com aquele outro grupo, o de amigos verdadeiros.

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